Fale Conosco
  :: Arquivo
• Livros Objeto, Livro
• Ler, verbo transitivo
• Manifesto da Unesco sobre Bibliotecas Públicas
• O livro e a leitura na era digital
• Quando crescer, vou ser... bibliotecário !
• Preservação do Livro Antigo
• Bibliotecário, Editor e Livreiro
• Carta do Livro
• Livro raro: antecedentes, propósitos e definições
• Um pouco sobre a história do livro
Faça sua busca:
» digite a palavra com acentos e "ç"

  :: Bibliofilia - Um espaço para bibliófilos e colecionadores

Bibliotecário, Editor e Livreiro

 

Editora

Livraria

 

 

 

 

 




 

Antônio Agenor Briquet de Lemos  nasceu em Teresina, no Piauí. Caçula de 12 filhos, passou a infância acompanhando o processo de confecção de livros no estabelecimento do pai, Antonio Lemos, jornalista e tipógrafo. O fascínio pelos livros nasceu aí. Fez carreira no Rio de Janeiro como bibliotecário e professor, com um breve período como jornalista do Jornal do Brasil. Convidado para trabalhar na recém-criada UnB, mudou-se para  Brasília em 1968. Em 1976 foi para Inglaterra onde fez seu Mestrado. Ocupou o cargo de diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT) e entre 1989 e 1992, pôde aprender todos os macetes de produção e distribuição do livro, trabalhando como diretor da Editora da Universidade. Assim ganhava forma uma idéia que o acompanhava desde o Rio de Janeiro, a abertura de uma editora própria, o que aconteceu assim que se aposentou da Universidade, em 1993.

Aqui, Professor Briquet fala sobre livros,  leitura e a profissão.

 

BiblioDesign: Diz-se que o brasileiro lê pouco, em parte pelo alto custo dos livros. Com base em sua experiência como diretor da editora da UnB, professor, bibliotecário e, atualmente, editor, o que o Sr. acha desta afirmativa?

 

Briquet: Como toda afirmativa categórica, esta deve ser vista com cautela. Praticamente desde o século XIX que se diz que o livro brasileiro é caro. Pergunto: caro em relação a quê? São todos caros? Caros em comparação com os congêneres estrangeiros? Caros em relação à gasolina, ao chope, ao churrasco, ao cinema, aos discos, aos remédios, aos alimentos? Em relação aos preços dos livros de antigamente? Ou, mais precisamente, em relação ao poder aquisitivo da população? Mas, de quais parcelas da população, já que há parcelas de poder aquisitivo notoriamente alto? Minha resposta é que, na média, o livro brasileiro não é caro. Há livros caros, sim, livros que, pelas suas características formais e de tiragem, situam-se num patamar de preços altos, destinados a segmentos bem-definidos da população. Mas há livros baratos e livros até baratíssimos.

 

Não é por aí que se vai explicar o índice insatisfatório de leitura. Poderia contrapor dizendo que se houvesse bibliotecas públicas na mesma proporção em que existem locadoras de vídeo e casas lotéricas, bibliotecas bem supridas e atualizadas, certamente haveria mais pessoas lendo, independentemente do preço do livro. Vejam-se as experiências de bibliotecas comunitárias na periferia de algumas cidades.

 

BiblioDesign: A leitura é um hábito a ser estimulado desde cedo. Na sua opinião, as crianças brasileiras têm este estímulo em casa e na escola?

Briquet: Não. Com exceção de famílias que tiveram convivência com a leitura desde cedo, em geral as casas brasileiras, sem privilégio desta ou daquela classe social, são hoje uns desertos de livros. Quanto às escolas, a situação é calamitosa, como demonstrou, mais uma vez, estatística recente do Ministério da Educação. Não só por causa da quase inexistência de bibliotecas, mas, também, pela atitude hostil ou omissa de muitos professores em relação ao livro e à leitura.


BiblioDesign: A nova geração de leitores tem disponível um novo recurso, o livro eletrônico, "e-book". Qual sua opinião sobre o uso de tecnologias como a Internet e sua relação com a leitura?

Briquet: Considero a internet, o livro eletrônico e assemelhados como um dos mais importantes estímulos à leitura. Lêem-se páginas da internet, aos milhões. Aí me parece é onde deve estar o fulcro da discussão: não se trata de polemizar sobre o presente ou futuro do livro impresso, mas, sim, de estudar, analisar e, se possível, antecipar as novas formas da leitura num mundo cada vez mais informatizado e internetizado. O importante, social e individualmente falando, não é o livro de per si, mas a leitura.



BiblioDesign: Estamos no ano Ibero Americano da Leitura e o tema do Congresso Brasileiro de Biblioteconomia deste ano é "Livro, Leitura e Bibliotecas: exercício
da cidadania". Qual sua opinião sobre as principais medidas públicas para
facilitar o acesso ao livro e estimular a leitura?

Briquet: Uma única medida: criar bibliotecas aos montes, em todos os lugares possíveis, de todas as formas e tamanhos, ricas e pobres, modestas e luxuosas, bem-equipadas, com orçamentos adequados e com pessoal qualificado e bem remunerado. O resto virá naturalmente.


 

BiblioDesign: Sua editora é especializada em publicações relacionadas à Biblioteconomia e Ciência da Informação. A produção editorial da área no Brasil, a seu ver, é satisfatória?

Briquet: Não. Pouco se publica. Pouco se escreve orientado para estudantes e profissionais. Faça-se uma comparação com a Argentina, por exemplo. Os apelos que tenho feito para que os autores potenciais me apresentem originais de livros publicáveis não são respondidos. Parece que não há um compromisso dos professores, muitos portadores da indispensável qualificação e da desejável experiência, no sentido de dotar o ensino e a profissão de instrumentos de aprendizagem adequados e em variedade suficiente.



BiblioDesign: Quais são os critérios usados para a escolha de assuntos que serão publicados?

Briquet: Nosso critério está centrado na possibilidade de o texto corresponder a uma demanda perceptível na área de ensino e profissional, e desde que essa área ainda não esteja contemplada com algum título razoável.



BiblioDesign: A profissão de bibliotecário ainda é vista por muitos como eminentemente técnica. Na sua opinião, qual a contribuição deste profissional para estimular a leitura e quais seriam hoje, os principais campos de trabalho para o profissional?

Briquet: Não vejo nada de ruim numa profissão eminentemente técnica, desde que os conhecimentos técnicos se fundamentem em princípios e na teoria apropriada. Para que o bibliotecário possa estimular a leitura, deverá lançar mão de conhecimentos técnicos, de técnicas de motivação, de captação da atenção do leitor, etc. Não é a técnica em si que nos diminui e incapacita para alcançar os objetivos maiores da profissão.

 

Vejo que o campo de trabalho se ampliou bastante. E que o setor privado é hoje um grande empregador. E que é crescente o número de profissionais que se fazem presentes nas áreas de aplicação da informática à biblioteconomia. Por outro lado, parece-me que está desaparecendo a figura do bibliotecário bibliógrafo, do bibliotecário historiador, do bibliotecário pensador.



BiblioDesign: Tendo trabalhado como professor do curso de Biblioteconomia da UnB e como diretor do IBICT, qual sua opinião sobre a formação e o preparo dos profissionais que estão ingressando atualmente no mercado de trabalho?

Briquet: Prefiro não responder esta pergunta. São muitos os cursos hoje em dia, são milhares os que se formam a cada ano, há inúmeras possibilidades de pós-graduação, e são tão diversas as demandas do mercado que somente um estudo de campo poderia nos permitir chegar a uma conclusão. 

                                         O bibliófilo eletrônico 

Por: Cláudia Tarpani
Publicada em: 05/05/2005

Indique esta página